AMÉRICA LATINA – COMO CHEGAMOS AO 6 A 4
Depois de 120 minutos de sufoco da equipe da Argentina contra Espanha, fiquei pensando no atraso do Brasil e da América Latina. Vamos aproveitar o futebol para fazer um resumo desses mais de 500 anos, até chegarmos ao 6 a 4. O jogo, com toda a sua dramaticidade, paixão e reviravoltas, é a metáfora perfeita para a nossa complexa história econômica e social; é a cara da América Latina. Afinal, se o placar contra a Europa hoje nos parece desfavorável, o jogo é longo e a bola ainda está rolando. A Argentina não conseguia ultrapassar a defesa da Espanha. O mesmo acontece com a América Latina que não consegue ultrapassar as barreiras econômicas.
Foram sociedades latino-americanas moldadas pela enorme desigualdade, com base no trabalho escravo e no latifúndio. Esse “estilo de jogo” centralizou o poder e a riqueza, criando uma base frágil para o desenvolvimento interno. Mais de 300 anos jogando trancados na defesa, exportando ouro, prata e açúcar. As regras foram ditadas pelo adversário. A riqueza gerada financiou a infraestrutura dele, enquanto ficamos com a desigualdade. Entramos em campo com a tática imposta de exportar matéria-prima e importar manufaturados, consolidando uma base de profunda desigualdade.
Esses países foram a grande “fazenda” e a “mina” da Europa (ouro, prata, açúcar, café). Enquanto a Europa acumulava capital para sua futura industrialização, a América Latina se especializava em exportar matéria-prima e importar produtos manufaturados. O “atraso” da América Latina é o reflexo da sua inserção histórica global como fornecedora de recursos de baixo valor e consumidora de alta tecnologia.
Brasil, Argentina e México tentaram mudar a estratégia com a “Substituição de Importações” (produzir internamente o que antes era comprado fora). No século 20, o Brasil contava com população majoritariamente jovem e um mercado interno gigantesco. Foi o momento em que foram criadas indústrias de base, mas ainda dependendo de tecnologia estrangeira. Instabilidade política crônica, golpes de Estado e ditaduras mantiveram o atraso.
Conquistamos a independência política, mas mudamos apenas de “técnico”, mantendo a dependência econômica e a instabilidade no vestiário. Tentamos propor o jogo com a industrialização, mas tomamos o gol de contra-ataque nos anos 1980, quando os juros americanos de 20% explodiram nossa dívida e nos empurraram para a hiperinflação.
O Plano Real estabilizou o time, domou inflação, mas o uso prolongado do dólar artificialmente barato cobrou o seu preço, funcionou como um “carrinho por trás” na nossa própria indústria, que nunca se recuperou totalmente. O boom das commodities trouxe dinheiro rápido, mas aprofundou a desindustrialização. Voltamos a ser o grande fornecedor de recursos brutos, perdendo espaço na corrida tecnológica global.
O Brasil entra em campo neste ano eleitoral sob forte incerteza, precisando decidir se continuará jogando na retranca da dependência de commodities ou se desenhará uma nova estratégia focada em educação e tecnologia para parar de tomar gols do exterior. Chegamos ao ano eleitoral no meio do fogo cruzado entre EUA e China pela busca das terras raras e disputa pela moeda global. A velha sedução das massas feita pelos marqueteiros políticos na TV evoluiu. Hoje, o jogo é ditado pela guerra de algoritmos e redes sociais. Na arquibancada, as massas, anestesiadas pelas redes sociais e capturadas pelas ilusões, sofrem um esvaziamento existencial, apostando a sobrevivência no azar. O apito de 2026 é dramático. As massas, sem bom preparo, estão agora com foco nas bets e nos prazeres.
Ignorando a finalidade da vida, a humanidade não consegue segurar o desmanche. Muitas coisas que estão acontecendo atualmente fazem parte do jogo competitivo China/EUA. Para obter melhoras, um povo tem de estar consciente de que está vivendo em situação precária, que não é o viver apropriado para a espécie humana. Uma população que luta diariamente contra o endividamento, sem tempo para o pensamento crítico e capturada por telas, não reúne forças para formular um projeto de nação de longo prazo.
Para que ocorra uma mudança real, a sociedade precisa romper o estado de anestesia provocado pelas redes sociais, pela polarização política cega ou pelos vícios, e atingir a autoconsciência de que o nível atual de sobrevivência não é digno da espécie humana. Resultado final: o placar de 6 a 4 reflete que, apesar de termos recursos naturais vitais e criatividade de sobra, estamos perdendo o jogo por falta de empenho na construção de um projeto tático de longo prazo. A reversão desse quadro não virá de um “salvador da pátria,” mas sim do resgate da consciência dos indivíduos e da humanidade no sentido de que o gol é alcançar o desenvolvimento humano pleno.
*Benedicto Ismael Camargo Dutra, graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Coordena os sites https://vidaeaprendizado.com.br/ e https://library.com.br/home/ . E-mail: bicdutra@library.com.br










