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COMÉRCIO EM EQUILÍBRIO

Num artigo publicado em 2018 pelo jornal O Estado de S. Paulo, Cláudia Trevisan fez ampla análise da situação econômica da China, cujo primeiro ministro Xi Jinping a está delineando como superpotência. Ele considera o modelo chinês “exportável”, declarando que o sucesso dos últimos 40 anos pode ser um modelo para países em desenvolvimento que buscam progresso econômico.

A manutenção do Partido Comunista no comando e no controle geral da sociedade chinesa visa adaptar o marxismo à realidade atual do mundo. Jinping adotou um tom triunfalista ao lembrar as conquistas das últimas quatro décadas, período no qual seu país se transformou na segunda maior economia, na maior potência comercial e no maior detentor de reservas internacionais do mundo.

Utilizando políticas industriais que colocam o Estado na busca do desenvolvimento das tecnologias que dominarão a economia do Século 21, a China avança na produção de manufaturas para exportar e na tecnologia de ponta, enquanto muitos países, inclusive o Brasil, se encheram de dívidas, enfrentado queda na produção, na arrecadação, no salário e na aposentadoria, embora o custo de vida vá sempre sendo atualizado.

Com a subida dos juros americanos, a dívida externa dobrou nos anos 1980 e o Brasil quebrou. Toda exportação foi usada para pagar juros e resgates, uma vez que o governo emitia para comprar os dólares e inundou o mercado de moeda que se depreciava diariamente. Dívida é a mais crítica questão da gestão pública. Aí a irresponsabilidade novamente levou o país à beira do abismo, sem que tivesse destinado os valores em benfeitorias de real proveito. Muitos Estados quebram porque gastam mal e acima do que arrecadam, se endividam e depois ficam insolventes.

Com a possibilidade de emitir dinheiro do nada, o combustível do comércio se tornou tóxico. Quanto mais moeda em circulação, maior montante passa a ser exigido devido à depreciação do poder de compra, até que num dado momento vem a parada geral; é quando os preços caem, dando chances a quem tiver dinheiro para boas aquisições para recomeçar um novo ciclo.

Ricos ou pobres, em geral os Estados não dão muito apreço à natureza. A exploração de minérios no Brasil mostra a triste realidade de uma civilização que, por sua cobiça por uma riqueza menor, perdeu a visão da beleza e da grande riqueza da natureza que a tudo sustenta. A displicência e irresponsabilidade se observam de modo geral em tudo no país.

Tudo foi sendo deixado ao acaso, cada um agindo como lhe apetecia. Desindustrialização. Uso geral dos computadores restringindo o ser humano e suas capacitações que vão se perdendo. O apagão moral e mental se espalhando. Cada um acha que o problema é do outro e ninguém toma uma atitude para verificar claramente o que está acontecendo. Falta transparência. Pão e circo, despreparo das novas gerações e escandalosa transferência das riquezas estão fazendo do Brasil um abismo de lama.

Na medida em que as novas tecnologias vão sendo utilizadas em larga escala para reduzir custos e ampliar o controle sobre as pessoas, as atividades vão entrando em rígidas rotinas que se resumem em apertar botões. Se as pessoas não se dedicarem a outras atividades como a leitura e estudos sobre o significado da vida acabarão emburrecendo, perdendo o foco e a capacidade de pensar com clareza.

A invenção da moeda e do crédito acabaram estabelecendo o “financeirismo” como a prioridade dos líderes. A China percebeu isso e voltou sua economia para o acúmulo de moeda global e aumento de poder. Triunfante, Xi Jinping oferece o modelo chinês como tipo de governança que está dando resultado. Mas seja qual for o tipo de governança, o aprimoramento da espécie humana não tem sido o alvo prioritário da humanidade.

Por que cerca de um bilhão de chineses permaneceram na miséria por longo tempo? Por que a miséria e a precariedade estão aumentando em várias regiões, inclusive no Brasil? Evidentemente, o bom preparo da população e definição de metas que promovam a continuada melhora das condições contribuiria para impedir a instalação da pobreza e miséria, mas, além disso, para que haja progresso, o intercâmbio entre os países requer equilíbrio livre de cobiça, progredindo a economia em paralelo com a evolução natural da vida.

* Benedicto Ismael Camargo Dutra é graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP, faz parte do Conselho de Administração do Hotel Transamerica Berrini, é articulista colaborador de jornais e realiza palestras sobre temas ligados à qualidade de vida. Coordena os sites www.vidaeaprendizado.com.br e www.library.com.br. É autor dos livros: “Nola – o manuscrito que abalou o mundo”;“2012…e depois?”;“Desenvolvimento Humano”; “O Homem Sábio e os Jovens”; “A trajetória do ser humano na Terra – em busca da verdade e da felicidade”; e “O segredo de Darwin – Uma aventura em busca da origem da vida”(Madras Editora). E-mail: bicdutra@library.com.br; Twitter: @bidutra7

COMÉRCIO E CONVIVÊNCIA PACÍFICA

O sistema econômico tem sido predatório; a governança, oportunista e corrupta. A ONU prevê aumento da população dos atuais 7,6 bilhões para 11 bilhões para as próximas décadas. Esse aumento preocupa porque já estamos no limite do planeta e com o nível de vida tendendo à precarização. As elites do Ocidente se colocaram numa posição de intangibilidade, enquanto surgia um desarranjo econômico decorrente da produção asiática voltada prioritariamente para exportações e acúmulo de divisas, acarretando o fechamento de indústria e destruição de empregos. Os países têm o direito e o dever de buscar melhores condições para sua população, mas sem equilíbrio nas relações entre os povos os conflitos tenderão a recrudescer.

A forma da implantação da Zona Franca de Manaus acabou favorecendo a estagnação, pois enquanto as zonas francas eram implantadas visando à exportação, a de Manaus se tornou um artificial corredor de importados que inviabilizou a industrialização fora dela.

Quando o Brasil implantou uma dolarização disfarçada para combater a inflação, afetou profundamente a insípida estrutura industrial. Com o reducionismo imposto à indústria, surgiram várias consequências negativas, como o atraso geral na esfera de produção, na capacidade técnica da mão de obra e no bom preparo das novas gerações. Nesta fase eleitoral, o que dizem os candidatos sobre a situação da indústria, o que recomendam para recuperar o atraso, pois não dá para importar tudo, nem há dólares suficientes?

O pós-guerra ensejou melhora nas condições de vida nos EUA e Europa. No Brasil, os efeitos não foram sentidos na mesma dimensão, pois o país não foi governado com seriedade. Na China, a rigidez de Mao Tse-Tung foi posta de lado. Deng Xiaoping e seus sucessores deram início a uma virada econômica que favoreceu a melhora das condições de vida do povo e gerou reservas volumosas em dólares. Enquanto isso, estagnavam os rendimentos da classe média no Ocidente. Estamos num momento significativo, mas a grande maioria não consegue ver o futuro com nitidez. Enfrentaremos a confrontação e o caos econômico ou teremos novas diretrizes que permitam uma convivência de progresso pacífico entre os povos?

No livro A queda do Ocidente? Uma provocação, Kishore Mahbubani, da Universidade de Singapura, diz que o ingresso da China na OMC em 2001 representou a entrada de quase um milhão de trabalhadores no sistema comercial global, o que resultaria na perda de postos de trabalho no Ocidente, declínio de salários reais, redução na participação no PIB e aumento da desigualdade, e que as elites não se deram conta desse processo transformador da Ásia. Aqui fica uma dúvida: não perceberam ou deixaram rolar para tirar proveito? Mas houve um desequilíbrio na produção e comércio global que favoreceu a Ásia, enquanto países como o Brasil sofreram perdas na indústria e no preparo das novas gerações. Como corrigir?

É preciso que exista um denominador comum entre as diversas moedas que ficam sujeitas a variações ditadas por interesses de forma que os ajustes feitos em algumas delas repercutam em outras, gerando consequências positivas ou negativas dependendo da situação da economia de cada país envolvido. No jogo intricado do câmbio, tornaram-se possíveis as variações estratégicas ou especulativas que atuam a favor de uns em prejuízo de outros, mas o descontrole poderá levar a consequências perigosas. Quem consegue descobrir como se move esse mercado cambial global? Fato que com dólar mais caro importa-se menos bugigangas da China, mas também se viaja menos para a Flórida.

Quando a produção se concentra numa região, aumenta a produtividade, mas em outras, os empregos se reduzem. Onde obter consumidores para a enorme capacidade de produção? Acirra-se a concorrência. Surge um desequilíbrio na economia global. Como chegar a um denominador comum que favoreça todos os povos? A tentativa de impor tarifas surge como uma revolta à atual situação de comércio internacional do livre mercado que permitiu o desarranjo, admitindo igualdade de tratamento diante de fatores desiguais, afora o câmbio. Os efeitos se mostram em todos os países cuja balança comercial tem apresentado déficits. Como o equilíbrio nas transações gerais poderá ser estabelecido sem provocar rupturas? Algo deve ser feito; a hora exige bom senso de todos visando a melhora das condições gerais de vida.

* Benedicto Ismael Camargo Dutra é graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP, faz parte do Conselho de Administração do Prodigy Berrini Grand Hotel, é articulista colaborador de jornais e realiza palestras sobre temas ligados à qualidade de vida. Coordena os sites www.vidaeaprendizado.com.br e www.library.com.br. É autor dos livros: “Nola – o manuscrito que abalou o mundo”;“2012…e depois?”;“Desenvolvimento Humano”; “O Homem Sábio e os Jovens”; “A trajetória do ser humano na Terra – em busca da verdade e da felicidade”; e “O segredo de Darwin – Uma aventura em busca da origem da vida”(Madras Editora). E-mail: bicdutra@library.com.br; Twitter: @bidutra7