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A CIVILIDADE NA CRISE E A GRATIDÃO

A civilidade é mais que educação; é a postura interior. Civilidade não é apenas boas maneiras. É a capacidade de agir com dignidade e gratidão pela oportunidade da vida, mesmo quando o mundo está em crise generalizada. É recusar a lógica do “cada um por si”. É não explorar o medo alheio. É não buscar vantagens às custas da fragilidade do outro. É manter a integridade e serenidade quando tudo ao redor parece instável.

Simbolicamente, o cerne dos cavaleiros do Apocalipse é a balança da justiça que está pendendo para o lado escuro da humanidade, em decorrência de suas próprias escolhas, o que representa o falhar daqueles que se detiveram nas ninharias da vida, em vez de buscar o desenvolvimento do espírito, e nisso foram criadas as condições para o caos que se aproxima. Nesse meio, muitos encontrarão o caminho que eleva, caso se esforcem para isso.

Enquanto não sentirem a vontade de trilhar um novo caminho com uma sintonização voltada para o bem geral e para o aprimoramento moral e espiritual, as dificuldades continuarão crescendo. Como levar avante uma civilidade em tempos de crise, e que não esconda a dureza da realidade? Como direcionar essas informações ao povo em geral?

Vivemos um período em que a humanidade parece ter chegado ao limite de seus próprios caminhos. Pandemias, guerras, instabilidade econômica, crises ambientais e tensões sociais revelam algo que vai além dos fatos: mostram que perdemos a sintonia com aquilo que sustenta a vida em comum.

Durante milênios, avançamos em ciência, tecnologia e poder material, mas abandonamos algo essencial: a capacidade de usufruir com gratidão a existência consciente que nos foi dada, contribuindo para o bem geral do ambiente em que vivemos. Como escreveu Abdruschin, Na Luz da Verdade: “o ser humano desconhece a jubilosa gratidão de usufruir de modo alegre a existência consciente que lhe foi dada, coparticipando na grande Criação para o bem de seu ambiente.”

Essa ausência de gratidão e responsabilidade interior se manifesta hoje em todos os níveis: na política, na economia, nas relações sociais e até na vida íntima das pessoas. O resultado é um mundo que parece sempre à beira do colapso, onde cada crise se soma à anterior e onde a sensação de insegurança se tornou permanente.

Mas não estamos condenados a repetir esse ciclo. A mudança começa no bom querer. Nenhuma reforma política, nenhum plano econômico e nenhuma liderança será suficiente enquanto o ser humano não desejar, de forma sincera, trilhar um novo caminho. Um caminho baseado em liberdade para decidir, responsabilidade pessoal, respeito e consideração ao outro, cooperação, verdade, sobriedade, consciência moral, e compromisso com o bem comum e a continuada busca de melhores condições de vida e aprimoramento da espécie. Sem essa base, qualquer sistema desmorona.

As famílias, escolas e profissionais de saúde têm de formar pilares de equilíbrio. Num tempo de ansiedade coletiva, esses três núcleos precisam caminhar juntos. Necessitamos de famílias que conversem, acolham e orientem; de escolas que ensinem os conteúdos adequados ao bom preparo para a vida, mas também autocontrole, empatia e pensamento crítico; de profissionais de saúde que compreendam o impacto emocional das crises e ajudem a sociedade a não sucumbir ao pânico. Sem essa rede, a população fica vulnerável a discursos de ódio, manipulação e desespero.

As instituições e a economia requerem responsabilidade compartilhada. Governos, empresas, bancos, escolas e cidadãos precisam agir com sobriedade. Não é tempo de oportunismo. É tempo de transparência, prudência, cooperação, respeito aos limites e compromisso com a estabilidade social. A economia não é um jogo de vencedores e perdedores; é o sistema equilibrado que deve sustentar a vida de todos.

Falta um alarme, um chamado à sintonização correta. O mundo não mudará apenas com leis, decretos ou eleições. Ele mudará quando cada pessoa decidir alinhar sua vontade ao bem geral, ao aprimoramento moral e ao respeito pela vida. Essa sintonização não é abstrata. Ela se expressa em cada gesto, cada escolha, cada palavra tudo unido, voltado para o bem geral.

É possível viver com dignidade mesmo em tempos difíceis. É possível reconstruir a confiança e criar uma cultura de paz, responsabilidade e verdade. Mas isso exige que cada um de nós desperte para a grandeza e a responsabilidade de ser humano diante da grandiosa finalidade da vida para nos tornarmos bons feitores do planeta que constroem um futuro cada vez melhor.

*Benedicto Ismael Camargo Dutra, graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Coordena os sites https://vidaeaprendizado.com.br/ e https://library.com.br/home/ . E-mail: bicdutra@library.com.br

UMA NOVA ECONOMIA

Uma nova economia, com a centralização das decisões pelo Estado forte, planejando e controlando tudo, entrou em competição com o livre mercado sob a influência do poder econômico e político, onde a população tem sido submetida a um processo que a mantém acomodada; todavia havia empregos de mais qualidade com menos luta pela sobrevivência. O objetivo é produzir e vender grandes lotes com pequenas margens de lucro, mas que representam montante significativo devido às quantidades e preços imbatíveis. Esperemos que isso não venha a sufocar as capacitações e iniciativas dos indivíduos. Qual será o futuro desses dois sistemas que oferecem riscos e vantagens para uns e outros, mas que pegou o ocidente despreparado e que agora está sem rumo? A economia tem de se tornar simples e natural, com equilíbrio, ou a precarização poderá avançar.

No ocidente, movimenta-se muito dinheiro, mas não há muitas fábricas produzindo e requerendo financiamento de capital de giro, então o capital vai para as bolsas de valores, sem resultar na criação de novos empregos. Investimentos em infraestrutura são necessários, mas não geram exportações. No Brasil, a desestruturação da economia, que já vem cambaleando há décadas, será altamente danosa, trazendo ao país o risco de entrar em nova estagnação.

A individualidade e a diversidade dos povos são naturais, no entanto tais diferenças favorecem o progresso, observando as leis da natureza que são uniformes para todos os povos e, em sendo respeitadas, favorecem o entendimento e a paz. Com os recursos ofertados pela natureza, a vida no planeta não deveria apresentar tanta miséria, desde que os seres humanos seguissem as leis naturais da Criação. Porém, o viver foi se tornando cada vez mais áspero, surgindo a luta e a astúcia para a sobrevivência.

Pessoas que decaíram muito na estrada da vida, sejam ricas ou pobres, têm dificuldades para sair do nível em que se encontram por não quererem reconhecer que a causa do declínio está nelas mesmas. Os seres humanos, dominados pela cobiça, se tornaram desconfiados e estranhos uns aos outros. Raramente notamos entre os indivíduos e os povos um gesto de sincera cordialidade e consideração; faltam as palavras amistosas tão frequentes em épocas passadas.

A irregularidade nas chuvas começa a preocupar com a diminuição do nível dos reservatórios. O mundo esteve, durante séculos, olhando só para o dinheiro, esquecendo tudo o mais, deixando em segundo plano a riqueza que nos é dada pela natureza como o ar e a água, fora todas as outras benesses. Mas agora estamos no limiar em que a sociedade estará sujeita a crises de todas as espécies que ocorrerão com frequência daqui em diante. Ou seja, eventos que porão em evidência a estupidez dos homens em relação à própria vida e à sustentabilidade do planeta. Cada país terá de se dedicar intensamente na recuperação em seus limites, cuidando de seu povo e sua cultura; no entanto, tirar vantagens de outros povos e nações tem de ser banido para que haja paz e progresso.

Se quisermos um mundo melhor, em continuado progresso, é preciso acabar com a luta por riqueza, poder e dominação, e a geopolítica travada pelos poderosos contra a grande massa. Não há equilíbrio. Prevalece produzir onde o custo seja o mais baixo, para vender aos que ainda podem pagar. O poder e os ganhos são disputados pelos graúdos, enquanto a miséria vai aumentando. Necessitamos de uma economia sem os atuais gritantes desequilíbrios. Não basta simples parceria; é preciso que haja progresso e ganhos mútuos.

A pandemia parou a economia em 2020. Nada de tão grave ocorria na economia desde 1929. Se tudo está parado, não há renda; sem renda fica difícil sustentar empreendimentos deficitários. Enfim, pouco podemos fazer e decidir enquanto a economia não entrar no ritmo. Até lá temos de prosseguir do melhor jeito que pudermos, sem ficar ruminando descontentamento e insatisfação com as atuais condições de vida para não criarmos desarmonias ao nosso redor.

Mostrar gratidão pelo dom da vida com espontânea alegria da alma gera harmonia em nosso entorno. Não podemos descuidar da vigilância, mas permanecer atentos, descortinando o momento com as suas imposições e oportunidades. O bom é alegrar-se com a vida em vez de ficar cismando sobre as ninharias.

* Benedicto Ismael Camargo Dutra é graduado pela Faculdade de Economia e Administração da USP, faz parte do Conselho de Administração do Hotel Transamerica Berrini, e realiza palestras sobre temas ligados à qualidade de vida. Coordena os sites www.vidaeaprendizado.com.br e www.library.com.br. E-mail: bicdutra@library.com.br